Rua residencial arborizada em preto e branco, com prédios recuados atrás de jardins e árvores na calçada
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Arquitetura que faz bem: o que muda quando o projeto pensa no dia a dia

O sol que entra no inverno, o térreo que conversa com a calçada, a parede que segura o barulho. O que observar num prédio residencial, com exemplos de São Paulo.

· 5 min de leitura · Redação Cadernos do Campo Belo

A perspectiva de um lançamento mostra o prédio num fim de tarde perfeito, visto de longe. Quem vai morar nele vai conhecê-lo de outro jeito: pela luz que entra na cozinha às sete da manhã, pelo caminho entre a vaga e o elevador, pelo barulho que chega ou não chega ao quarto, pelo jardim que aparece na janela enquanto se espera a água do café ferver.

A boa arquitetura residencial é a que acerta essas coisas pequenas e repetidas. Elas raramente aparecem no folder e quase nunca se corrigem depois da entrega. Este texto reúne cinco pontos para observar num prédio, com exemplos de São Paulo.

O sol de cada fachada

Em São Paulo, a orientação das janelas muda a casa inteira. O arquiteto Durval Tabach, formado pela FAU-USP, explica a diferença: ao meio-dia, no verão, o sol chega a cerca de 89 graus em relação ao horizonte, quase a pino. No inverno, fica em torno de 43 graus.

A consequência prática é conhecida de quem já morou nos dois lados de um prédio. Com o sol mais baixo no inverno, a luz e o calor entram fundo pelas janelas voltadas para o norte justamente quando são mais bem-vindos. No verão, com o sol quase vertical, essas mesmas janelas recebem menos radiação direta. O próprio Tabach alerta que a vantagem depende de outros fatores, como os prédios vizinhos e o desenho das aberturas.

Por isso vale perguntar, numa visita, para onde está voltada cada fachada e em que ambientes ficam a sala, os quartos e a área de trabalho. É uma pergunta simples, que se responde com a implantação do prédio na mão.

A planta que separa e aproxima

Uma casa boa para a rotina resolve duas necessidades que puxam em direções opostas: ficar junto e ficar sozinho. A cozinha integrada à sala aproxima quem cozinha de quem conversa. O corredor que leva aos quartos cria uma pausa entre o social e o íntimo. O escritório com porta permite trabalhar sem ocupar a mesa de jantar.

Na planta, esses arranjos aparecem como linhas. Na vida, é deles que dependem pequenos atritos diários: a reunião de vídeo interrompida pelo liquidificador, a visita que precisa atravessar a sala para chegar ao lavabo, o quarto do adolescente colado à sala de TV. Ler a planta imaginando um dia comum, do café ao último copo de água antes de dormir, é a melhor forma de encontrá-los.

O térreo e a rua

Em 1961, a escritora americana Jane Jacobs publicou Morte e vida de grandes cidades, livro que popularizou a ideia dos "olhos da rua": calçadas movimentadas, observadas por quem passa e por quem está dentro dos prédios, tendem a ser mais seguras e mais interessantes.

São Paulo incorporou uma versão dessa ideia à lei. O Plano Diretor de 2014 criou a fachada ativa, que incentiva térreos com uso aberto ao público para evitar, nas palavras da Prefeitura, "a multiplicação de planos fechados na interface entre as construções e o passeio público".

Num prédio residencial, a rua entra de outra forma: pelo recuo ajardinado, pela transparência da portaria, pelas árvores na calçada. A cidade tem um exemplo clássico. O Edifício Louveira, em Higienópolis, projetado por Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi a partir de 1946, tem dois blocos separados por cerca de vinte metros, com um jardim entre eles, pilotis e uma rampa sinuosa que liga tudo. Tombado pelo Condephaat em 1992, continua sendo uma aula de como um prédio pode receber quem chega.

Rampa curva com guarda-corpo amarelo atravessando o jardim do Edifício Louveira, entre árvores e plantas tropicais
A rampa e o jardim entre os dois blocos do Edifício Louveira, em Higienópolis. Foto: Arte Fora do Museu · CC BY 2.0

O que não aparece na foto

Parte do que faz um prédio bom não se vê. A NBR 15575, a Norma de Desempenho, em vigor desde julho de 2013, estabelece requisitos de isolamento acústico, conforto térmico, iluminação e durabilidade para edifícios residenciais. Define três níveis: o mínimo, obrigatório, e os níveis intermediário e superior.

Na prática, é a norma que ajuda a responder se o vizinho de cima vai ser ouvido, se o quarto vai esquentar demais no verão e quanto tempo os sistemas do prédio devem durar com manutenção adequada. Perguntar em que nível o projeto foi feito é uma forma objetiva de comparar lançamentos que, nas perspectivas, parecem iguais.

Três disciplinas, um projeto

Arquitetura, paisagismo e interiores costumam ser tratados como camadas sucessivas. Os melhores projetos fazem as três conversarem desde o começo. O Althea por Mitre, em breve lançamento na Rua Morais de Barros, no Campo Belo, é um exemplo recente em que as três autorias foram declaradas desde o anúncio.

A arquitetura é de Jonas Birger, que já assinou para a Mitre o Haus Mitre Jardins e o Essência Brasileira. Para quem compra, a parceria anterior tem um valor prático: há outros projetos do mesmo arquiteto com a mesma construtora para conhecer e comparar. O paisagismo é de Benedito Abbud, e os interiores das áreas comuns, de Cláudia Albertini.

Nas perspectivas do projeto, a torre se apoia num embasamento baixo, de madeira e vidro, com jardins no acesso e árvores na calçada. É no térreo que as três disciplinas se encontram: o volume de Birger, o verde de Abbud e os interiores de Albertini formam a primeira impressão de quem chega.

Perspectiva ilustrada de um embasamento residencial visto da rua, com fachada em trama de madeira, jardim vertical e árvores na calçada
O embasamento do projeto da Rua Morais de Barros, na escala da calçada. Perspectiva ilustrada.

Perguntas para levar a uma visita

Depois de ver o decorado, vale fazer algumas perguntas que o decorado não responde.

Para onde estão voltadas a sala e os quartos? O que existe, ou pode ser construído, na frente de cada janela? Como o prédio encontra a calçada: com muro, grade, jardim ou vidro? Onde ficam as áreas técnicas, como geradores e casa de máquinas, em relação aos apartamentos? Quem assina a arquitetura, o paisagismo e os interiores, e onde é possível ver outros trabalhos dessas pessoas?

Um prédio se conhece pelo que acerta nas coisas pequenas e repetidas.

O prédio visto de perto

Mais de setenta anos depois de concluído, o Louveira é lembrado pelo jardim entre os blocos e pela rampa que recebe quem chega. Com o tempo, a fachada de um prédio se incorpora à paisagem do bairro, e o que continua sendo notado todos os dias é a forma como ele acolhe quem mora e quem passa.

É uma régua útil para qualquer lançamento. Antes da vista do último andar e do acabamento do lobby, vale imaginar a manhã de segunda-feira de quem vai viver ali.

Pessoa observando a vista arborizada do Campo Belo

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Althea por Mitre · Campo Belo

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